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Frankenstein: o Criador, a Criatura e o Amor. Entre a rejeição e os limites da criação.

Em Frankenstein, Mary Shelley constrói uma narrativa que ultrapassa o horror e se transforma em uma metáfora sobre a condição humana. O encontro entre o Criador e a Criatura revela o abismo entre razão e afeto, ciência e empatia, vida e rejeição. Ao criar um ser e abandoná-lo, Victor Frankenstein não só desafia os limites da ciência, mas também expõe o medo humano de amar aquilo que é imperfeito.

Os limites da ciência e da criação

Os limites entre a ciência e a criação sempre geraram discussões e opiniões divergentes ao longo da história. Mary Shelley continua atual ao antecipar dilemas éticos que hoje se refletem em situações reais desde procedimentos estéticos arriscados até práticas médicas em que o ego do profissional se sobrepõe ao respeito pela vida. A angústia vivida por Victor Frankenstein surge do desejo de ultrapassar os limites humanos, de “ser como Deus”, sem conseguir suportar as consequências do próprio ato. A narrativa evidencia como a ambição desenfreada e a falta de responsabilidade podem gerar dor, morte e isolamento, refletindo dilemas éticos que permanecem pertinentes mais de dois séculos depois da publicação do livro.

A rejeição e a solidão da Criatura

Essa reflexão sobre limites da criação nos leva ao segundo eixo do romance, a rejeição e a solidão da Criatura. Mais do que um monstro de horror, ela é um símbolo da dor de não ser amado. A Criatura nasce inocente, com um desejo simples e humano de ser aceita. Aprende a falar, a ler e a observar o mundo, mas é justamente nesse processo que descobre o peso da rejeição. Cada olhar de medo, cada grito de repulsa, cada porta fechada a transforma um pouco mais. Shelley mostra que o “monstro” não nasce mau; ele se torna o que o mundo o faz enxergar.

O desejo de amor e pertencimento

A narrativa se aprofunda ainda mais no tema do amor e do pertencimento. A Criatura é o espelho de todos que já foram deixados de lado, aqueles que buscam afeto e encontram apenas abandono. Em sua jornada, ele implora por um gesto de carinho, por alguém que o reconheça como semelhante. Quando essa aceitação não acontece, o vazio se transforma em raiva, e o desejo de pertencer se converte em dor e vingança. Shelley constrói, assim, uma poderosa metáfora sobre a solidão e sobre a necessidade universal de reconhecimento.

O olhar do outro e a ideia de monstruosidade

Por fim, Shelley nos leva a questionar o que define a verdadeira monstruosidade. O olhar do outro carregado de medo, preconceito e repulsa é o que transforma a Criatura em algo que o mundo chama de “monstro”. Quem, então, é o verdadeiro monstro? Aquele que nasce diferente e sonha com bondade, ou aquele que, diante da diferença, responde apenas com medo e desprezo? O horror que permeia a obra não está na aparência da Criatura, mas na incapacidade humana de amar o que é diferente e de lidar com o imperfeito.

Frankenstein é, portanto, muito mais do que uma história de horror, é um retrato atemporal da condição humana. Shelley nos convida a refletir sobre responsabilidade, amor, exclusão e a necessidade de empatia. Ao explorar os limites da criação, a solidão da rejeição e o desejo de pertencimento, o romance nos mostra que os verdadeiros monstros podem não ser aqueles que assustam, mas sim aqueles que deixam de amar.

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