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Cleópatra e Frankenstein: Dependência emocional em relacionamentos fracassados.

Cena do filme Cleópatra
, 1963. Diretor: Joseph L. Mankiewicz.

“Cleópatra e Frankenstein” é um romance que revela tanto a intensidade quanto a fragilidade das relações humanas, explorando temas como saúde mental, trauma, suicídio e as delicadas heranças que carregamos e que continuam a moldar nossos comportamentos, decisões, anseios e medos.

 Uma obra que transita em circunstâncias de vulnerabilidade, Coco Mellors explora as diversas expectativas que carregamos, tanto que projetamos nas pessoas com quem nos relacionamos tanto – e talvez mais profundamente – como que nos internalizamos.

Majoritariamente somos guiados  pelo casal protagonista, Frank e Cleo, o livro se desdobra em círculos sociais de amizades questionáveis ​​e familiares excêntricos que ganham vida com uma narrativa fluida e assertiva de Mellors. A cidade onde a história se passa também assume um papel central, tornando-se quase uma extensão dos personagens, e a autora investe principalmente em diálogos existencialistas marcantes, deixando para o leitor as interpretações e sentimentos que emergem dessa experiência.

A Dependência Emocional: Complexidade e Raízes Psicológicas

A dependência emocional é uma característica presente em muitas relações do livro. Esse transtorno é marcado por comportamentos aditivos em relacionamentos amorosos e ainda suscita debate sobre sua natureza e sintomas. Na psicologia, ela está frequentemente associada ao desenvolvimento do apego na infância, assim como às influências culturais. Em “Cleópatra e Frankenstein”, Cleo parece depender emocionalmente de Frank, mas será que ele vai amar? Ou, mais ainda, será que ela realmente o ama ou está apenas emocionalmente ligada a ele?

Cleo enfrentou a depressão desde cedo, e essa condição se reflete profundamente em sua construção como personagem. Dois eventos definiram sua vida emocional: o suicídio da mãe quando Cleo era adolescente e o abandono emocional subsequente por parte do pai. A psicologia considera o abandono uma forma de luto, uma perda que impacta profundamente. Assim, perde não apenas a mãe, mas também o suporte e afeto paternos essenciais.

A importância de uma rede de apoio emocional se destaca, especialmente ao observarmos o papel da madrasta de Cleo, que parece apenas agravar seu estado emocional. Esses traumas acumulados colocam Cleo em uma posição de vulnerabilidade constante, algo que só se intensifica após seu casamento com Frank, quando ela perde o controle sobre sua vida.

“A Parte Mais Sombria de Mim” – Diálogos do livro

Um momento simbólico no livro é quando Cleo cria: “Quando a parte mais sombria de você encontra a parte mais sombria de mim, ela luz.” Essa frase evidencia a esperança que ela depositou no relacionamento com Frank. No entanto, em sua busca por essa “luz”, ela perde completamente o controle: abandona o tratamento para sua depressão e entrega sua vida a Frank, um homem emocionalmente instável e dependente do álcool. Ele parece o desfecho de uma escalada de caos que, aos poucos, revela-se previsível.

Isso levanta uma questão relevante: a autora aborda a depressão e o suicídio de Cleo de forma responsável? Ou acaba por simplificar a complexidade desses temas ao inserir diversos elementos trágicos sem dar a eles uma resolução mais profunda?

A Diferença de Idade: Desvantagem e Dependência

Uma diferença de idade significativa separa Cleo e Frank, algo que é difícil de ignorar. Cleo é uma artista jovem, ainda incerta sobre seu lugar no mundo, enquanto Frank já é um publicitário bem-sucedido, financeiramente estável e com sua vida definida. Desde o início, Cleo se encontra em posição de manobra. A diferença de idade também representa estilos de vida contrastantes, e ao longo da história, Cleo torna-se financeiramente e emocionalmente dependente de Frank, depositando nele todas as suas expectativas.

Por outro lado, Frank se mostra egoísta e emocionalmente irresponsável. Ignora os pedidos de atenção e afeto de Cleo, faz piadas cruéis sobre o casamento e chega a flertar abertamente com outras mulheres. Embora ofereça a Cleo segurança financeira, nunca lhe dará o que ela realmente precisa no plano emocional. Esse é um aspecto relevante que a obra ilustra com precisão, já que, na realidade, muitas mulheres enfrentam dinâmicas semelhantes.

Reflexões sobre Responsabilidade Afetiva

Coco Mellors nos convida, através da história de Cleo e Frank, uma reflexão sobre as bases frágeis e desiguais que podem sustentar as relações e como os padrões de comportamento e expectativas sociais aumentam a influência das experiências de muitas mulheres.

O romance Cleópatra e Frankenstein traz uma crítica contundente à dinâmica do abandono e da irresponsabilidade emocional que ainda permeia muitas relações. Cleo é uma personagem que evoca empatia, refletindo as consequências das feridas emocionais não tratadas e dos vínculos desequilibrados. A história desafia o leitor a refletir sobre o papel da mulher em um contexto de relações marcadas por desigualdade emocional e a importância de uma rede de apoio na vida de qualquer pessoa.

Neste romance, Mellors deixa, talvez intencionalmente, a sensação de que Cleo e Frank representam uma faceta de relacionamentos destrutivos que, muitas vezes, a sociedade ainda permite ou normaliza, como se o amor fosse, acima de tudo, uma tolerância sem limites.

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