Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura, Han Kang é uma escritora sul-coreana, escritora da obra de 2007, que embora leve o título “A Vegetariana” , o vegetarianismo é apenas uma superfície, como um cenário que serve de contexto para a obra. A história não tem como foco o ativismo alimentar, mas sim a jornada de Yeonghye, uma mulher que, ao se recusar a comer carne, inicia uma ruptura silenciosa com as opressões que aprisionaram, que vão se escalonando ao decorrer da história, nos influenciando a questionar sobre papeis de gênero, e comportamentos machistas inseridos na sociedade.
Curiosamente, a protagonista nunca se define como vegetariano; o termo é imposto por aqueles ao seu redor — seu marido, seus familiares e seu cunhado, que narram, cada um, as três partes do livro. Ela declara apenas que não comerá mais carne, sem se inserir em rótulos ou categorias. Mas propositalmente, apenas conhecemos sua história na perspectiva de terceiros.
A Vegetariana é uma obra dividida em três atos, cada um contado de uma perspectiva diferente, e narra o lento processo de desumanização de Yeonghye. Sob constante opressão, ela canaliza sua resistência por meio do corpo, abandonando a carne e buscando na conexão com os vegetais uma forma de liberação da condição humana que a aprisiona. Conforme há um distanciamento dela e seu espaço na vida social e cultural, ela se aproxima das árvores, sugerindo aversão aos homens à sua volta.

Como os traumas familiares moldam nossas escolhas e destinos
Os laços familiares são frequentemente descritos como uma base de amor incondicional e apoio, mas nem sempre essa é a realidade. Os traumas familiares moldam quem somos , influenciando nossas escolhas, nossas faltas e excessos. Em muitos casos, quando pais colocam suas necessidades acima de tudo, podem tratar os filhos como extensões de si mesmos, impondo-lhes o peso de expectativas irreais. Eles podem invalidar emoções, exigindo gratidão incondicional ou até punir qualquer sinal de individualidade.
A família de Yeonghye, formada por pai autoritário e mãe subserviente, não aceita a decisão de não comer carne, gerando umas das cenas mais impactantes do livro, um almoço de domingo cheio de conflitos, que gera violência em diversas formas.
Um lar disfuncional pode ser caracterizado por críticas constantes, competição interna, favoritismo ou mesmo negação de problemas que precisam ser resolvidos. Em tais ambientes, é comum que os membros internalizem a culpa ou a responsabilidade pelo bem-estar do outro, assumindo papeis que não deveriam pertencer.
A dificuldade em estabelecer limites e a busca por padrões familiares que podem gerar vínculos com parceiros ou amigos que perpetuam ciclos de abuso ou controle. Ambos temas são explorados nas escolhas afetivas da própria protagonista, e sua irmã.
Os traumas familiares muitas vezes se perpetuam ao longo das gerações. Pais que crescem em ambientes disfuncionais tendem, deliberadamente, a replicar esses padrões com seus próprios filhos. Embora o perdão seja frequentemente apresentado como uma solução, é essencial considerar que o comportamento tóxico dos familiares não é reflexo do nosso valor. É preciso libertar-se da ideia de que devemos carregar as expectativas ou os erros dos nossos familiares. A ideia de que “família é tudo” muitas vezes encobre as dinâmicas disfuncionais e algumas vezes doentias que acontecem dentro de casa. Reconhecer que o amor familiar não deve ser uma obrigação, mas uma escolha baseada no respeito mútuo. Os traumas familiares podem moldar nossa jornada, mas não precisamos definir nosso destino e que temos o poder de reescrever a narrativa que nos foi imposta. Isso não é um rompimento com o passado, mas uma reconciliação com nosso verdadeiro eu.
Conclusão
Han Kang usa o vegetarianismo como ponto de partida para explorar temas muito mais amplos: opressão, trauma, saúde mental e resistência feminina. A narrativa, composta de imagens surreais e momentos de desconforto, é tão difícil como a própria vida. A Vegetariana é, acima de tudo, um convite à reflexão sobre os limites da humanidade e da resistência feminina, em um ritmo que particularmente me deixou por alguns dias devastada.




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