No mundo literário, vozes femininas frequentemente foram abafadas ao longo da história, especialmente as de mulheres negras, cujas narrativas foram marginalizadas em espaços dominados por homens brancos. Não foi diferente com Octavia E. Butler (1947-2006), uma pioneira na ficção científica que desafiando as convenções de seu tempo, trouxe à tona histórias que mesclam questões raciais, de gênero e poder.

“Comecei a escrever sobre poder porque era algo que tinha muito pouco“
Butler utiliza a viagem no tempo como uma metáfora para evidenciar como o passado molda e influencia o nosso presente. Por meio desta perspectiva, ela expõe como as cicatrizes deixadas pela escravidão são profundas e permanentes, demonstrando que a história permanece viva e ressoa nas experiências da protagonista e por extensão nos leitores. A autora retrata o racismo e a violência com uma linguagem vívida que gera o desconforto necessário para fomentar reflexões necessárias.
Kindred: Laços de Sangue (1979), é um exemplo marcante de como Butler subverte o gênero para explorar o impacto histórico da escravidão e suas consequências contemporâneas, reafirmando a importância de escutar e de amplificar essas vozes.
Em sua obra somos apresentados a Dana, uma mulher negra que enfrenta os desafios de existir em uma sociedade que ainda impõe barreiras para sua ascensão financeira e pessoal. Como escritora iniciante, Dana precisa conciliar sua paixão pela escrita com trabalhos precários para garantir sua sobrevivência, uma realidade que contrasta com a trajetória de Kevin, seu futuro marido, um homem branco que já começa a desfrutar do reconhecimento literário.
Amor à primeira vista, casamento em Las Vegas, mudança para uma casa onde iriam morar juntos, tudo parecia estar em perfeita harmonia entre Dana e Kevin. No entanto, tudo muda quando Dana desmaia na sala de estar e é transportada para 1815, onde se encontra com Rufus, seu antepassado branco. Nesse período brutal marcado pela escravidão, Dana precisa enfrentar não apenas os horrores de sobreviver como uma mulher negra escravizada, mas também a responsabilidade de ajudar Rufus a garantir sua própria existência no futuro.

O livro é dividido em seis capítulos: O Rio, O Incêndio, A Queda, A Luta, A Tempestade e A Corda, todos narrados pela perspectiva de Dana, a protagonista e narradora-personagem. Ao longo da jornada, Dana tenta salvar repetidamente a vida de Rufus, em uma relação marcada por camadas de complexidade. Essa conexão é permeada por poder e dependência, obrigando Dana a auxiliar alguém que simboliza o opressor. Tal dinâmica a leva a constantes dilemas sobre os limites de seus atos para preservar sua segurança e também sua vida.
Silenciamento de mulheres negras e a quem isso favorece:
É pertinente enfatizar sobre o silenciamento das personagens femininas negras durante a narrativa. Dana, embora expressasse suas dores e angústias, raramente era ouvida, uma realidade compartilhada por outras personagens, como Alice e Sara. Elas sempre tiveram voz, mas suas palavras eram constantemente ignoradas ou desprezadas. Octavia E. Butler expõe essa dinâmica, trazendo à tona a invisibilização histórica das mulheres negras, tanto no passado quanto no presente.
No contexto brasileiro, um exemplo dessa realidade infeliz é o assassinato de Marielle Franco, vereadora e mulher negra que se tornou referência para o Movimento Negro e os Movimentos Feministas. Marielle usava sua voz para representar as pautas de sua comunidade na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, mas foi brutalmente silenciada, evidenciando como essa luta ainda é urgente e necessária.
Violência policial, feminicídio, narrativas eurocêntricas desde a escola e a constante luta contra a invisibilização marcam as perspectivas de mulheres que, antes de serem mulheres, são negras. Desde a infância, são ensinadas a se moldarem a padrões que não as representam, enquanto enfrentam um sistema que as desumaniza até mesmo nas instituições escolares. Como ter uma atitude à frente disso?
Não há uma receita pronta para lidar com uma problemática de tamanha dimensão. Reconhecer privilégios é o mínimo e é uma tecla que todos estão cansados de bater. No entanto, para transformar atitudes tão intrínsecas e estruturais em nossa sociedade, é fundamental nos unirmos em torno de uma educação antirracista, promovendo debates, apoiando movimentos e fortalecendo redes de apoio, denunciando atos racistas e sendo ativa nas lutas, esses são fatores essenciais para a construção de uma comunidade mais equalitária para todas.
Conclusão:
O livro traz o debate acerca da condição das mulheres em uma relação de extrema opressão à população negra, como ocorreu durante o sistema escravista nos séculos XIX e XX nos Estados Unidos. Paralelamente, a autora durante sua infância vivenciou o período do Apartheid, o que também influenciou as nuances de sua história e da sua perspectiva com os personagens. Além disso, a obra convida o leitor a pensar quanto às heranças escravocratas que ainda reverberam em nosso presente tanto nas relações com nossos antepassados. Com uma linguagem fluida e crua, Octavia E. Butler constrói uma narrativa envolvente e impactante, consolidando Kindred como um grande clássico da ficção científica.




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