bell hooks, no início do livro, afirma que o amor começa a ser construído antes mesmo de nascermos, e que a infância é nosso primeiro contato com o amor do outro. Por isso, muito do que somos em nossas relações ao longo da vida — inclusive na vida adulta — é reflexo desse início. O excesso ou a ausência de afeto cria lacunas em nossa personalidade e pode gerar traumas que moldam nossa forma de enxergar o mundo. Ser amado e protegido dá origem a pessoas funcionais, seguras e assertivas. Em contrapartida, um “amor” baseado em punição e hierarquia de controle é um modelo falho, típico de sociedades subdesenvolvidas, marcado por uma lógica de dominação que remonta aos tempos coloniais e escravocratas, quando a correção era feita com violência. Esse tipo de amor é herdado, passado de geração em geração, e ainda hoje atravessa nossas famílias, perpetuando um ciclo de dor disfarçado de cuidado.

A ideia de que o que muitos chamam de “amor” é, na verdade, a reprodução de hierarquias e violências simbólicas precisa ser encarada com seriedade. Crianças que aprendem a obedecer por medo, e não por respeito, tendem a abandonar cedo suas casas ou manter pouco vínculo com os pais na vida adulta. Esses padrões atravessam nossos relacionamentos amorosos e afetivos, gerando dependência emocional e pouca autonomia. Como diz a frase: “Aprendemos a pedir desculpas por existir antes de aprendermos a nos amar.”
É urgente que repensemos o que chamamos de amor. Amor não é controle, medo ou punição — é presença, escuta, responsabilidade e construção mútua. Enquanto o afeto continuar sendo privilégio de poucos, seguiremos repetindo um modelo de sociedade que fracassa em cuidar. Que possamos, então, aprender a amar de verdade. Amar com coragem, e não com medo. Amar como quem planta, e não como quem exige flores de um jardim que nunca regou.



Deixe um comentário