Cherie Dimaline (1975), é uma autora canadense da comunidade Métis da Baía Georgiana, em Ontário. Além de escrever, ela também fundou a revista Muskrat Magazine, voltada para arte e cultura indígena, e foi a primeira autora indígena residente da Biblioteca Pública de Toronto. Cherie também já participou de diversos projetos e antologias que promovem vozes indígenas no cenário literário.

Ao longo da sua trajetória, ela vem colecionando prêmios importantes, The Marrow Thieves (2017) rendeu a ela o Governor General’s Award, o Kirkus Prize na categoria jovem adulto, o Burt Award for First Nations, Métis and Inuit Literature e o Sunburst Award. Em 2021, foi reconhecida com o Writers’ Trust Engel/Findley Award, que celebra autores em meio de carreira com obras de destaque. Já em 2024, seu trabalho recebeu um dos maiores reconhecimentos internacionais na literatura infantojuvenil: o NSK Neustadt Prize. Com tudo isso, Dimaline se firma como uma das vozes mais relevantes e potentes da literatura indígena atual.
Em um mundo marcado pela colonização e pela perda de identidade, Todas as Coisas Ferozes é um grito de resistência pela Literatura Indígena. O livro acompanha Joan, uma jovem Métis que vive em Toronto e descobre que seu namorado desaparecido, Victor, pode estar envolvido com o mito do Rogarou, uma criatura sobrenatural ligada à cultura indígena, tradicionalmente descrito como uma criatura metade homem, metade lobo ou cão, que vaga pelas florestas ou comunidades. Ao retornar para sua comunidade, Joan mergulha em memórias, laços familiares e segredos ancestrais, enfrentando questões sobre pertencimento, espiritualidade e sobrevivência. A história mistura realismo e elementos fantásticos, criando uma narrativa intensa e simbólica sobre resistência indígena e amor.

“Se você tirar tudo o que os colonizadores roubaram de outros povos, não lhes restará nada.”*
O livro é dividido em 33 capítulos, 24 que acompanham a trajetória da Joan e em 9 capítulos narrados pela perspectiva do próprio Victor, que assume a forma do Rogarou. Essa estrutura alternada aprofunda a experiência de leitura e dá voz às múltiplas camadas do enredo, a fera e a visão do mundo real.
Entre o sagrado e o selvagem:
- Apagamento cultural e manipulação religiosa:
Durante a leitura, conhecemos Heiser, um personagem que utiliza a religião como ferramenta de controle. Ele se apresenta como líder espiritual de uma irmandade (Ministério da Nova Redenção) que, à primeira vista, parece oferecer acolhimento e cura. No entanto, à medida que a narrativa avança, fica evidente que Heiser deturpa a palavra de Deus para justificar violência, opressão e o apagamento das raízes culturais daqueles que acolhe. Essa comunidade de fé funciona como lavagem cerebral e como uma extensão dos sistemas coloniais, que historicamente usaram a religião cristã para deslegitimar crenças indígenas, silenciar práticas espirituais ancestrais e moldar subjetividades por meio da culpa e do medo. Dimaline mostra como a fé, quando distorcida por figuras autoritárias, pode deixar de ser refúgio e se tornar mais uma arma contra a identidade e a memória dos povos originários.
- Rogarou e lendas indígenas:
O livro nos apresenta a figura mitológica do Rogarou, descrito como uma criatura metade homem, metade lobo ou cão, que vaga pelas florestas ou entre as cidades. Diferente do lobisomem clássico do imaginário ocidental que é ligado à lua cheia, o Rogarou carrega um significado mais simbólico e espiritual. Ele representa o desequilíbrio, a transgressão e, muitas vezes, a punição por romper com valores coletivos. Em algumas versões da lenda, a transformação ocorre quando alguém desrespeita as tradições da comunidade ou comete agressões verbais e físicas. Na narrativa de Dimaline, essa figura ancestral é resgatada não apenas como mito, mas como metáfora da dor histórica e da luta pela reconexão com as raízes indígenas.
- Sabedoria ancestral e o papel das mulheres anciãs:
A narrativa é marcada por personagens muito bem construídos, especialmente as mulheres. Um bom exemplo é a Ajean, a anciã da comunidade, que rompe com os padrões geralmente associados a mulheres mais velhas. Por mais que carregue consigo toda a sabedoria ancestral e o respeito de quem a rodeia, ela também fala, abertamente e sem pudores, sobre seus desejos, paixões e as aventuras que viveu ao longo da vida e que ainda vive. Ao fazer isso, a autora nos presenteia com uma perspectiva rara e essencial: a de que mulheres mais velhas também têm direito ao desejo, à autonomia e ao prazer, sem serem reduzidas apenas ao papel de guardiãs da sabedoria e aos cuidados dos outros.
Também conhecemos Mere, avó de Joan, que rompe com o estereótipo da avó doméstica, aquela que fica em casa assando bolos. Pelo contrário, ela é uma ativista social, profundamente engajada na luta por justiça e pelo fortalecimento de sua comunidade. Mere dedica sua vida para que seus netos, e toda a comunidade, sintam orgulho de serem indígenas, mantendo viva a cultura, a história e a resistência de seu povo.
Conclusão:
Todas as Coisas Ferozes, é um livro com uma linguagem de fácil compreensão mas que atua como uma forte fonte de reflexão sobre os direitos indígenas. Cherie Dimaline cria uma esfera de suspense onde sentimos o ar gélido da noite que o Rogarou está à solta e o sofrimento de Joan por ter seu marido desaparecido. A autora consegue balancear elementos fantásticos e as dores do mundo real, conduzindo os leitores por uma história que, ao mesmo tempo em que diverte, denuncia as violências históricas enfrentadas pelos povos indígenas. Tudo isso, além de abordar os laços comunitários, a força das mulheres e o poder da ancestralidade, que surge como um farol de resistência e cura no meio do caos.
*Frase do Prefácio do livro Todas as Coisas Ferozes, de Cherie Dimaline, escrito pela brasileira Dayhara Martins (@dayharabooks).




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