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A Dor do Vazio que Resta: Abandono no Romance de Elena Ferrante.

A ruptura que Dias de Abandono dramatiza não é apenas conjugal. Ela é ontológica. Olga, ao ser deixada, desaba, não porque não suporta estar só, mas porque percebe, num ato de horror, que sua vida estava montada em torno de uma ficção. Uma ficção sustentada por ela, para ele.

Não é só sobre ser deixada. É sobre tudo o que desaba quando o outro vai embora e leva junto a versão de nós que existia pra ele.

Retrata o colapso subjetivo de uma mulher que foi colocada, por anos, a serviço do desejo de um outro. Olga não enlouquece porque ama demais, ela colapsa porque, sem o olhar que a sustentava, não sabe mais quem é.

Segundo Lacan, o sujeito se constitui a partir da falta. Isso não tem a ver com mutilação real, mas com a percepção de que nenhum de nós é completo, que somos marcados pela ausência de algo. Para o sujeito feminino, no entanto, essa falta costuma ser ocupada por uma tarefa impossível: a de completar o outro.

Olga tentou isso. Tentou ser boa mãe, boa esposa, mulher presente, mulher forte. Tentou ser o suporte, o chão, o acolhimento, aquilo que preenche. Mas quando é deixada, a estrutura toda cai. Não só porque perde um marido, mas porque perde o lugar que ocupava na história dele.

Na linguagem psicanalítica, dizemos que o sujeito sofre quando perde o lugar no desejo do “Outro” esse Outro com O maiúsculo representa o grande outro simbólico: a cultura, a linguagem, as relações que nos formam. Quando Olga é descartada, o que se rompe é a fantasia de ser insubstituível. Ela se vê como resto, como sobra, e isso é insuportável.

A “outra mulher” que aparece na história não é exatamente uma rival. Ela é o que Lacan chamaria de objeto, o objeto que parece prometer ao homem aquilo que ele sente que lhe falta. Ela entra como distração, como promessa de completude, como reparo narcísico. Não é sobre amor. É sobre alguém que ainda não viu de perto o vazio.

Ferrante escancara essa estrutura: a do homem que vai embora sem adoecer. Que troca de mulher como quem muda de cômodo. Que some sem culpa porque sabe que, no fim, quem vai reorganizar tudo é ela. E Ferrante nos mostra o que isso faz com o corpo da mulher: ela se tranca, ela para de comer, ela surta, ela adoece. Porque a dor não é só emocional, ela é também simbólica e física.

Mas o livro não termina aí.

A loucura de Olga é o início de outra coisa. De uma travessia. De um retorno a si. De uma pergunta que ela nunca pôde fazer enquanto era apenas espelho de alguém: o que eu quero agora que não sou mais desejada por ele?

Essa pergunta não tem resposta fácil. Mas ela é o começo de uma cura que não depende mais de um retorno, e sim de uma reinvenção. Enquanto ela enfrenta o colapso de sua existência, ele permanece ileso, preservando sua integridade aparente. Sai do quadro com uma leveza que revela não coragem, mas uma ausência de compromisso com o impacto que sua ausência gera. Em seu lugar, outra mulher ocupa o espaço, não por escolha genuína, mas pela função que lhe é atribuída no roteiro repetitivo da evasão masculina. Essa nova presença é, a princípio, lisonjeada pela ilusão de que participa de uma história diferente, mas, estruturalmente, apenas reencena o mesmo papel de suporte simbólico.

O abandono, neste contexto, não é um episódio isolado, mas uma repetição estrutural do modo como o sujeito masculino evita o enfrentamento da falta e da responsabilidade emocional. A substituição da mulher abandonada não configura uma vitória, mas um deslocamento funcional, que protege o sujeito masculino da confrontação com sua própria falência e da necessidade de elaborar suas próprias perdas.

Este ciclo, reiterado, produz um paradoxo cruel: enquanto o sujeito masculino mantém-se aparentemente imune às consequências emocionais e sociais de sua ausência, as mulheres permanecem sujeitas ao desgaste silencioso da reconstrução, da resignação e da internalização do fracasso afetivo. É uma assimetria que reflete não apenas uma dinâmica pessoal, mas uma estrutura sociocultural que naturaliza a impunidade emocional masculina e penaliza o sofrimento feminino.

Dias de Abandono incomoda justamente por expor essa assimetria, revela o lugar de exclusão que a mulher ocupa na ordem simbólica, onde a dor e o processo de reconstrução lhe são impostos, enquanto a ausência e a negação são legitimadas como estratégias de sobrevivência do sujeito masculino. A obra funciona como um espelho crítico que expõe as máscaras da liberdade masculina e o custo silencioso que seu exercício impõe às mulheres.

Esse olhar profundo e incômodo é necessário para que se compreenda a dimensão coletiva do abandono, para além das singularidades dos sujeitos envolvidos. Revela a urgência de repensar as relações de poder e responsabilidade no âmbito afetivo, e a importância da visibilização das consequências simbólicas e reais do abandono, especialmente para aquelas que são deixadas.

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