Imagem: Lorena Dini
(Contém spoiler!!!)
Aline Bei é escritora e poeta, graduada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Ganhou destaque no cenário literário brasileiro com seu livro de estreia, O peso do pássaro morto (2017), vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Romance de Estreante com Menos de 40 anos. Sua escrita se caracteriza pelo lirismo, pela delicadeza formal e pela capacidade de explorar com profundidade temas como memória, dor, luto e amadurecimento.
Em 2021, publicou Pequena Coreografia do Adeus, romance em que mais uma vez evidencia sua habilidade em criar vozes femininas intensas e complexas, abordando relações familiares e afetivas. Reconhecida como uma das vozes mais potentes da literatura contemporânea, Aline Bei conquista leitores pela sensibilidade e pela forma singular com que transforma experiências íntimas em universais.
A intimidade da escrita do livro O Peso do Pássaro Morto (2017) nos faz refletir sobre a vida, a morte e as relações que nos amparam. É um texto que nos mantém acordadas com o medo da perda das pessoas mais queridas e o receio de se perder na rotina exaustante da vida adulta. Com esse lirismo fortemente presente, Aline consegue desaguar nossos anseios em poesia, revelando a estranha beleza da dor de existir.
A estrutura narrativa foge do padrão a que estamos acostumadas, embora linear, se assemelha a poesia. No início, causa estranheza ao nos depararmos com nomes de pessoas em letras minúsculas e certas palavras em maiúsculas. Como Saramago, o enredo poético de Bei foge às normas gramaticais para criar uma cadência própria e genuína.
“entendendo que o tempo
sempre leva
as nossas coisas preferidas no mundo
e nos esquece aqui
olhando pra vida
sem elas.” (p. 152)
O livro é dividido em capítulos que acompanham a idade da narradora, dos 8 aos 52 anos, conduzindo-nos de uma morte a outra, das angústias de perder a melhor amiga à tristeza de perder a si mesma, morrendo tanto em vida quanto em corpo. A narradora não tem nome, por isso ao longo desta resenha, iremos nos referir a ela apenas como Ela, evitando confusões.

Reflexões a partir da narrativa:
- O Peso do Pássaro Morto:
Quando criança, Aline Bei cresceu em uma casa rodeada de pássaros. Em certa ocasião, sua mãe pediu que segurasse um canário para cortar-lhe as unhas. Enquanto a mãe buscava o cortador, Aline percebeu que sua mão estava pesada de uma forma diferente, tomado pelo medo, o pequeno pássaro morreu ali, em suas mãos de criança. Foi dessa experiência, marcada por uma melancolia precoce, que nasceu a inspiração para escrever a história de uma mulher atravessada por perdas, carregando a dor como parte de sua existência.
- A cura não existe:
Aos 8 anos, após a morte de sua melhor amiga, Carla, Ela é transferida de escola, uma tentativa dos pais de afastarem a filha das lembranças dolorosas que surgiriam ao retornar diariamente ao antigo espaço sem a presença da amiga. Aos 49 anos, enquanto encaixota os móveis para uma mudança, encontra uma redação escrita na nova escola. O reencontro entre passado e presente, o corpo não é mais o mesmo, calejado depois de tanto sofrimento, a única semelhança que permanece é a dor que ela ainda sente ao notar o quanto perdeu.
O texto intitulado A cura não existe, revela a saudade que sentia de Carla e a estranheza em lidar com o pós-morte sendo apenas uma criança. Mais do que a ausência, está ali também o luto pelo futuro que poderia ter sido compartilhado com sua melhor amiga e nunca aconteceu. Apesar da tristeza, esse momento convida à reflexão: quando alguém próximo morre, uma parte de nós também se vai? sim, no entanto, como lembra a própria Aline Bei, no tempo da nossa memória, somos para sempre.
- As mulheres nas trincheiras:
Ela sofre um abuso sexual aos 17 anos, um ex namorado, enquanto ela estava sozinha em casa. A cena é de partir o coração, um retrato da dor compartilhada por tantas mulheres. Nunca falamos sobre aquelas que sofrem, não damos o devido suporte mental e físico de que necessitam. Mãe, tia, prima, filha, somos muitas. A autora dá visibilidade a essa dor coletiva sem precisar nomear cada mulher. Nos livros de história há o nome de cada ditador, as mulheres sempre anônimas, a protagonista dessa história pode ser qualquer uma de nós. Quantas somos?
Ela decide levar a gravidez adiante, acreditando que o nascimento do filho faria nascer o amor. No entanto, isso não acontece. Ao longo dos anos de crescimento de Lucas, ela vê constantemente no rosto dele a lembrança de quem a feriu naquela noite.
- A carta da verdade:
Ela nunca contou a verdade sobre o pai do Lucas, nunca contou o que aconteceu naquela noite, nunca falou sobre como se sentia, nunca. O peso de carregar uma história tão cruel, a faz se tornar uma pessoa casulo, guardando tudo para si, sem deixar que a beleza da vida exterior adentre sua alma cansada. Escreve, então, uma carta com a verdade: sem destinatário, sem leitor, a joga no quintal de uma casa qualquer. Qual é o preço de seguir adiante sem partilhar as próprias dores?
- Realismo mágico:
A narrativa apresenta um momento mágico, em que tudo parece caminhar para um desfecho de “felizes para sempre”. Ela encontra um cachorro em um posto, adota-o e o chama de Vento, um encontro descrito com tamanha delicadeza que se torna encantador de ler. Muda-se para uma casa com um belo jardim, onde as escadas rangem e o disco troca de lado sozinho, mesmo sem a vitrola ter essa função. Dias ensolarados, feiras no bairro, pequenas alegrias que não significam pura felicidade, mas um estado contemplativo diante da tristeza, como se fosse possível enxergar beleza até mesmo na dor. Com perspicácia, Aline Bei constrói um ambiente atravessado pelo realismo mágico, onde o extraordinário se insinua no cotidiano.
Conclusão:
O texto, em sua essência, é bem híbrido, transitando entre a cadência poética e a estrutura narrativa, convidando-nos a se aventurar em diferentes arranjos literários. A leitura exige certos cuidados, pois aborda temas difíceis e dolorosos, tratados com lucidez e sem rodeios, é a vida em sua forma mais crua. Ainda assim, há brechas de luminosidade, a chegada do Vento é um sopro de amor, um sinal de que ainda existe esperança. Aline Bei se consolida como um marco da literatura contemporânea nacional e ler sua obra é uma honra, sobretudo em um tempo em que as vozes femininas já não precisam pedir permissão para existir na literatura.
Nesta resenha, eu repeti a palavra dor 8 vezes.
Que nossa existência como mulher não se paute apenas na dor de viver.




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